A análise de risco no mercado financeiro brasileiro exige, hoje, uma leitura muito mais sofisticada do que a simples checagem de indicadores. Felipe Rassi, especialista jurídico com atuação no segmento de créditos estressados, observa que boa parte das falhas na concessão e na gestão de crédito corporativo no Brasil decorre não da ausência de dados, mas da interpretação equivocada daqueles já disponíveis.
O primeiro semestre de 2026 reforçou essa percepção. Com a inadimplência corporativa em alta e o volume de NPLs crescendo de forma consistente, ficou evidente que os modelos tradicionais de scoring e de avaliação de risco apresentam limitações significativas quando aplicados a empresas com estruturas de capital complexas ou expostas a setores em transformação acelerada. Nas próximas linhas, você vai encontrar uma análise aprofundada sobre os principais fatores que moldam a gestão de risco em operações de crédito corporativo no Brasil em 2026.
Quando os modelos quantitativos não bastam
Felipe Rassi esclarece que, durante décadas, a análise de risco de crédito foi dominada por abordagens quantitativas: índices de liquidez, cobertura de dívida, alavancagem financeira e histórico de pagamentos compunham o núcleo das metodologias utilizadas pelas instituições financeiras. Esses instrumentos têm valor inegável, mas apresentam uma limitação estrutural relevante: refletem o passado, não o futuro.
Em um ambiente de juros elevados e instabilidade setorial, como o de 2026, empresas com balanços aparentemente saudáveis em dezembro de 2024 chegaram ao primeiro trimestre de 2026 com dificuldades severas de refinanciamento. O intervalo entre o sinal de deterioração e a ruptura efetiva do crédito foi, em muitos casos, inferior a 18 meses. Modelos que dependem de demonstrações financeiras auditadas, por natureza retrospectivas, chegam tarde.
A resposta do mercado tem sido incorporar camadas adicionais de análise: monitoramento de fluxo de caixa em tempo real, análise de comportamento de pagamento com fornecedores, leitura de dados alternativos como variação de consumo de energia elétrica e movimentação logística, e avaliação da qualidade da governança corporativa. Cada uma dessas camadas adiciona granularidade à leitura de risco e reduz a dependência de informações contábeis defasadas.
A dimensão jurídica que a planilha não captura
Segundo Felipe Rassi, uma das lacunas mais frequentes nos processos de análise de risco é a subestimação da dimensão jurídica do crédito. A existência de garantias reais, como alienação fiduciária, hipoteca ou penhor, não garante por si só a recuperabilidade do ativo em caso de inadimplência. O que determina o valor prático de uma garantia é a capacidade de executá-la dentro de um prazo e a um custo que ainda faça sentido econômico para o credor.
No Brasil, a execução de garantias ainda enfrenta obstáculos relevantes: morosidade judicial, disputas de preferência entre credores, questionamentos sobre a validade de cláusulas contratuais e, em casos de recuperação judicial, a sujeição das garantias ao plano aprovado pelos credores. Ignorar essas variáveis na fase de análise de risco equivale a superestimar o valor real da proteção contratual.

Por isso, a integração entre análise financeira e análise jurídica não é um diferencial, mas uma necessidade básica em operações de crédito corporativo de médio e grande porte. A due diligence financeira precisa caminhar lado a lado com a revisão dos instrumentos contratuais, das garantias constituídas e do histórico litigioso do tomador.
Risco setorial e concentração de portfólio
Outro ponto frequentemente subestimado nas análises de risco é a correlação entre ativos de uma mesma carteira. Fundos e instituições financeiras que concentram exposição em setores específicos, como agronegócio, varejo ou construção civil, tendem a enfrentar deteriorações simultâneas quando o setor entra em ciclo adverso. Em 2025, o setor de incorporação imobiliária voltou a pressionar as carteiras de crédito com inadimplência acima da média, repetindo um padrão já observado em 2015 e 2019.
A diversificação de portfólio, nesse contexto, não é apenas uma recomendação de manual. É uma variável de sobrevivência para gestoras que operam com crédito corporativo em ciclos longos. Como pontua Felipe Rassi, o risco de concentração muitas vezes não aparece nos relatórios de risco até que o evento de crédito já tenha ocorrido, justamente porque a correlação entre ativos só se manifesta de forma clara sob estresse.
Modelos de simulação de cenários adversos, os chamados stress tests, têm ganhado protagonismo entre as gestoras mais sofisticadas exatamente por esse motivo. Testar o comportamento de uma carteira sob hipóteses de queda acentuada de receita, aumento de custo de capital ou ruptura de cadeia de fornecimento permite antecipar vulnerabilidades que o monitoramento de rotina não captura.
Due diligence contínua como prática de gestão
A análise de risco eficiente não termina na concessão do crédito. Em operações de médio e longo prazo, a revisão periódica das condições do devedor, do setor e do ambiente macroeconômico é tão importante quanto a análise inicial. Essa prática, conhecida como monitoramento contínuo ou ongoing due diligence, ainda é subutilizada por boa parte dos credores brasileiros.
Na concepção de Felipe Rassi, a adoção de rotinas sistemáticas de revisão de portfólio é um dos fatores que mais diferenciam as gestoras com histórico consistente de recuperação de ativos daquelas que convivem com índices elevados de perda. O mercado de créditos estressados de 2026 é, em grande parte, produto de análises de risco insuficientes feitas entre 2021 e 2023, quando o ambiente de liquidez farta reduziu artificialmente a percepção de risco de boa parte dos agentes.
Compreender esse ciclo e extrair aprendizados operacionais dele é o que separa uma gestão de crédito reativa de uma verdadeiramente estratégica. Em um mercado que amadurece a passos largos, a análise de risco deixou de ser etapa inicial do processo e passou a ser o fio condutor de toda a gestão do crédito, da originação à recuperação.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
